Outubro 5, 2008


Eu já tinha rodado por quase todos os bares àquela noite...
Sozinho, com as mãos no bolso, já pensava em voltar para casa
quando ouvi aquela música e um monte de gente aglomerada na porta
daquele bar. As mulheres, aos batalhões, sorriam e se amontoavam na fila de entrada.
Era muita mulher mesmo! Eu pensei: "Uau, esse bar deve estar interessante!" E entrei.
Era uma casa de dança e a música era um tipo de forro eletrificado, desses que
se chamam de "forró universitário." Merda! Eu em minha eterna timidez, jamais
fui capaz de me interessar por dança, apesar de gostar eternamente de música.
Dançar para mim sempre foi uma coisa desnecessária, mas naquela noite,
com tantas mulheres belas ao meu redor, como seria bom ter domínio
sobre essa seqüência de movimentos corporais ritmados.
E lá fui eu para o melhor lugar do bar: o balcão. Só me restava beber umas
geladas e observar os casais afoitos girando pelo salão. Era incrível
ver aquela quantidade de lindas mulheres sozinhas esperando que um dançarino
as tirassem para dançar. E eu ali sem tomar atitude nenhuma.
Comecei a me sentir ridículo, como sempre me sinto nessas casas de dança.
E dale cerveja atrás de cerveja. As pessoas bebem ou para esquecer os problemas
ou pra se tornarem mais felizes ou as duas coisas. Fiquei lá no canto
escuro do bar pensando que realmente não devia ter entrado lá,
o único sujeito que não sabia dançar entre todas aquelas pessoas.
Foi quando uma bela garota, como que surgindo de um sonho colorido,
veio até mim, estendeu os braços e me convidou para dançar.
O que fazer? Como recusar um convite desses? Quem ajoelha, reza,
quem sai na chuva se molha, enfim... Lá fomos nós para o meio do salão.
É simples, pensei comigo mesmo, dois pra lá, dois pra cá, pura matemática!
Uma equaçãozinha besta mesmo. Talvez uma ginga de cintura aqui,
outra acolá e muito cuidado com os pés. Não pise jamais nos pés da dama!
Isso é equivalente a uma autêntica brochada, meu deus! Não sei por quê a moça
foi tirar justo eu para dançar. Entre tantos caras, o único que não sabia!
E ficou lá, despreocupada, esperando que eu tomasse a iniciativa nos movimentos.
Ah, eu juro que tentei! Esforcei-me o máximo que pude, mas as pernas trêmulas
cismavam em não corresponder aos meus ataques. Tentei puxar uma conversinha,
aquela conversa franca de quem não sabe dançar nadinha, mas ela pareceu nem dar
ouvidos. Eu seria apenas mais um com quem ela dançaria e ao findar da música
agradeceria e sairia em busca de outro par. Mas antes o ocorrido tivesse ao menos sido esse.
Antes mesmo do findar da música, no meio da dança, ela se desprendeu de mim
e subitamente começou a dançar com outro sujeito que por lá passava,
me deixando plantado sozinho no salão, os braços ainda abertos
e a maldita das pernas trêmulas. Fiquei lá, parado por um instante,
me sentindo o maior de todos os otários. Alguns casais em minha volta
olhavam para mim e soltavam estúpidos sorrisos em minha direção.
Sim, eu estava derrotado por todos. Voltei desesperadamente para o
balcão atrás de uma cerveja e tomei-a de uma vez, em um só gole.
O que me restava naquela noite? Paguei a conta e saí do bar.
No caminho para casa jurei para mim mesmo que nunca mais dançaria
com alguém em minha vida. Bem, posso dizer que acabei não
cumprindo a promessa e vez por outra me arrisco em alguns
passos com alguma mulher amiga e piedosa.
Mas o trauma, esse sim, carrego comigo até hoje.
Alguém por acaso sabe o que é ser abandonado no meio do salão
antes mesmo de acabar a música? Pois eu sei, cara!


AndreLeza 1:23 AM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Outubro 2, 2008


"Na vida há coisas muito piores do que ficar sozinho,
mas geralmente só percebemos isso quando é tarde demais,
e não há nada pior do que tarde demais."

Charles Bukowski


AndreLeza 10:50 AM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Setembro 21, 2008


Acordei naquela manhã em um banco qualquer de uma praça que não conhecia. Estava com uma aparência horrível e meus olhos não conseguiam enxergar a luz do sol. Olhava a rua, as pessoas e tudo estava mergulhado em trevas. Uma escuridão sinistra. Levantei e tentei caminhar, cambaleante, procurando identificar em que ponto da cidade eu me encontrava. As ruas me eram estranhas. As casas eram antigas, desbotadas e caiam aos pedaços. As pessoas passavam por mim apressadas e pareciam não me notar. Parei um transeunte e indaguei em que lugar eu estava. Ele me olhou estranhamente, me empurrou e seguiu adiante. Notei que o idioma que as pessoas falavam era diferente do meu. Uma língua completamente desconhecida. Por um momento, eu fechei meus olhos com força na esperança de ao abri-los estar acordando de um pesadelo, mas o esforço foi em vão. Uma chuva fraca começou a cair e um cheiro de mofo, de folha molhada e coisas velhas me invadiu as narinas. Vaguei por aquela cidade durante todo o dia, até que me cansei. Sentei-me em um ponto de ônibus e lá fiquei, esperando encontrar algum carro que me levasse para um bairro conhecido, mas não conseguia sequer ler as placas. Era inútil pedir informação, as pessoas não me entendiam. Notei que em meio às trevas do dia, pequenos pontos de luz flutuavam em volta de mim. Quando me atingiam, me causavam uma dor terrível no peito e sentia náuseas. Saí correndo desesperadamente, feito um louco, passando pelas esquinas sem olhar para trás. Realmente eu devia estar louco, perdido em um mundo completamente diferente,
onde ninguém seria capaz de me compreender. Entrei em uma rua assustadora, com casas de papelão, moribundos deitados pelas ruas entre os ratos, esgoto a céu aberto. Deitei-me entre eles, desesperado, quando avistei de pé em minha frente uma pessoa que destoava do ambiente cinzento e fétido que me envolvia. Era uma menina jovem e bonita, de face triste e de uma morbidez misteriosa, o que a deixava ainda mais bela. - Venha, me dê as mão, vamos sair daqui rapidamente - disse-me ela, no que eu atendi prontamente. Ela se abaixou, tomando impulso, e saímos voando feito duas almas em direção àquele céu escuro. Com esforço, desviamos dos fios de energia e ganhamos altura, sobrevoando toda aquela cidade de horror. Comecei a sentir um frio na barriga e ao mesmo tempo um alívio por estar deixando tudo aquilo para trás. Olhei para a menina e sua face não esboçava uma única expressão. Estava pálida e aflita como eu. Sobrevoamos a cidade até que ela ficou para trás e lá embaixo eu já não distinguia mais nada. Senti que as nossas forças estavam enfraquecendo e fomos perdendo altura, pouco a pouco, até aterrissarmos no alto de uma montanha, sobre uma imensa pedra negra. Deitamos os dois, lado a lado, ainda de mãos dadas, e adormecemos exaustos da viagem. Então comecei a sonhar... Já não existia mais a cidade de trevas, era apenas um campo verde, com lírios brancos por toda parte. A menina agora estava sorridente, usava uma saia de um branco transparente e se divertia com as borboletas azuis que a rodeavam. Pude ver que além de bonita, era de uma sensualidade irresistível. Começamos a bailar feito crianças, naquele campo de borboletas e lírios selvagens, até que nossos olhares se cruzaram e os lábios se beijaram com desespero, como se nossos corpos fossem dependentes um do outro naquele momento. Furiosamente, começamos a rasgar nossas vestes, as mãos passeando pelo corpo, arranhando, apertando, o dentes mordendo selvagemente, como dois animais famintos e bestiais. Ela sentou-se sobre mim e começou a movimentar-se docemente, enquanto o vento esvoaçava seus cabelos. Eu desejava jamais acordar daquele sonho! Procurei não pensar em mais em nada, apenas sentir os prazeres daquele instante mágico. Raios, relâmpagos e trovões anunciaram a chuva que começava a cair. Era uma chuva de cachos de uva, que estouravam em nossos corpos, nos lambuzando com seu gosto doce. O chão começou a tremer e a terra a rodar, rodar, rodar... E como no final de uma sinfonia, quando todos os instrumentos tocam forte e simultaneamente em uníssono, tudo se desfez imediatamente e o silêncio absoluto reinou.
Não demorou muito até que eu percebesse que estava em meu quarto, deitado ao contrário sobre cama, com um livro de Dostoievski ao meu lado e algumas de suas páginas amassadas. Em cima da mesinha, um copo de vinho ainda continha um último gole que não tive tempo de beber. A cidade de trevas, a menina de face misteriosa e corpo ardente, o campo de lírios, as doces uvas que vinham do céu... Tudo se desfazia em uma manhã típica de domingo. Fiquei um bom tempo ali, sem me mexer, refletindo sobre aquele sonho. Não seria melhor ser um louco em uma cidade de trevas, onde é tênue a linha que separa o paraíso do inferno, do que viver em um mundo completamente previsível? Não seriam os loucos os únicos a usufruirem da plena felicidade? Fiquei nessa até que minha bexiga pareceu estourar, fazendo-me levantar em um sobressalto. Esbarrei o pé na mesinha e a taça de vinho foi-se espatifar no chão.
- Merda! - assim começou meu dia no reino dos normais.


AndreLeza 10:58 PM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Junho 22, 2008


sim, sou louco assim mesmo,
uma pessoa nada convencional,
chegada a tempestades, vinho tinto e solidão.
sou louco por me preocupar com a flor que nunca vi,
nunca toquei, de perfume desconhecido.
sigo o caminho da incerteza,
sem saber onde vai dar, mas sigo em frente,
em busca de algum sabor que nunca provei,
da excitante escuridão que existe dentro do túnel.
não sou chegado a brincadeiras fúteis,
já que as coisas não estão para brincadeiras.
valorizo mais a tristeza sincera
do que toda a felicidade hipócrita deste mundo.
sou amante de pessoas de estilo,
sejam elas boas ou más,
grandes ou pequenas,
mas que tenham estilo!
sim, sou louco assim mesmo...
e por ser louco assim, tão amiúde,
reivindico o meu direito de errar,
de amar, de gozar, de viajar, de idealizar
e até mesmo sorrir!
o sorriso irônico de um louco
sem destino, que sai de casa a noite
simplesmente para beijar a lua.
sou assim.


AndreLeza 12:13 AM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Junho 1, 2008


Naquela época de estudante eu costumava almoçar em um restaurante pé-de-chinelo ali no centro da cidade. A comida não era lá essa coisa, mas o preço se adequava ao meu apertado orçamento. Além disso, lá trabalhava Carmem, a garçonete. Morena de traços fronteiriços, cabelos lisos, pretos e longos, baixinha e dona de umas ancas maravilhosas, com certeza as melhores da redondeza. Passava por mim sempre apressada, segurando bandejas, limpando mesas, carregando garrafas. Não tinha um belo rosto, mas seu rebolado era de uma classe fora do comum e despertava em mim diversas fantasias. Enquanto eu almoçava, sonhava possuí-la ali mesmo, por cima daquelas mesas, sob os olhares incrédulos dos outros fregueses. Ela era bastante assediada, mas parecia não dar bola a ninguém. A moça tinha classe. O tempo foi passando e minhas fantasias com Carmem foram se tornando cada vez mais férteis. Certa madrugada eu caminhava sem destino pelo centro da cidade em busca de algum bar para umas cervejas, quando avistei Carmem. Foi difícil reconhecê-la. Estava em uma esquina, toda produzida, batom bem vermelho e uma saia tentadoramente curtíssima. Lançava olhares e sorrisos sensuais para os carros que passavam por ali indo para algum lugar. Foi difícil acreditar. Carmem, a garçonete, era uma garota de programa. Aproximei-me dela. Quando me viu, pareceu ter me reconhecido e sua face ruboresceu. Não me olhava diretamente nos olhos enquanto eu falava.
- Olá. Você não é a garçonete...
- Era. Aquilo não estava rendendo e eu tenho que pagar minhas contas.
Neste momento um carro parou e um senhor de bigode grisalho colocou a cara para fora e a chamou. Trocaram algumas palavras, Carmem entrou no carro e saíram.
Passei um bom tempo sem vê-la. No restaurante ela nunca mais foi vista, mas eu continuava a sonhar com ela, passando por mim toda afoita naquele avental encardido que acompanhava o seu rebolar rebatador. Às vezes eu passava pela mesma esquina na esperança de encontrá-la, mas nunca mais. Tudo o que eu queria era que ela me olhasse nos olhos e me desse a chance de uma conversa. Algo me dizia que ali havia uma mulher interessante, além é claro dos dotes físicos já descritos.
Um bom tempo passou e eu já até havia parado de pensar em Carmem, quando um amigo que costumava almoçar comigo me disse tê-la visto novamente na função de garçonete, em outro restaurante da região central. No dia seguinte fui almoçar no tal restaurante e lá estava ela, no mesmo carregar de bandejas, o mesmo rebolar, a mesma classe. Quando me viu, deixou escapar um sorriso enquanto caminhava em minha direção para me atender. Que sorriso era aquele? Nunca havia sorrido para mim antes.
- Olá, você por aqui? – perguntou-me ainda sorrindo.
- Sim. Fico feliz por vê-la.
- Eu também – disse e saiu caminhando após anotar meu pedido, lançando um olhar para trás em minha direção.
Eu não podia acreditar, essa seria a minha chance! Antes de ir embora, deixei para ela um bilhetinho com meu telefone e os dizeres: “Preciso falar contigo.” Na mesma noite ela me ligou.
- Mas o que você quer comigo? Eu larguei daquela vida, sabe...
- Não é nada disso. Achei que a gente poderia sair para umas cervejinhas, conversar. Tenho aqui dois convites para um show esta noite.
Ela topou e naquela noite pude realizar meus sonhos. Passamos horas conversando, olhos nos olhos, ao som de uma banda de blues. Não estava enganado em relação à Carmem. Ela era uma moça muito inteligente e tinha uma história de vida e tanto, de luta e sofrimento. Trabalhava para sustentar a mãe que sofria de uma doença terminal. Disse ter encarado a vida de dama-da-noite para poder pagar uma cirurgia para a mãe, mas logo abandonou essa vida quando conseguiu levantar o dinheiro. Conforme a noite avançava e os copos de cerveja se multiplicavam, o nosso assunto foi se tornando mais quente. Contei que há tempos eu a observava e falei inclusive da minha fantasia em possuí-la na mesa do bar. Ela adorou saber daquilo. Beijou-me com força e disse sussurrando em meus ouvidos:
- Eu tenho as chaves do restaurante.
- Você está propondo a gente...
- Sim, saímos daqui e vamos direto para lá. Não há ninguém por lá numa hora dessas.
Já tinha lido em algum livro que quando queremos muito alguma coisa, todo universo conspira ao nosso favor para que aquilo se realize. Fiquei com isso na cabeça enquanto nos dirigíamos ao restaurante. Enquanto o táxi nos levava, Carmem me acariciava e beijava minhas orelhas. Não seria capaz de descrever as loucuras que aconteceram lá dentro e as outras que se sucederam, mas Carmem também tinha as suas fantasias. E que fantasias! Adorava ser mordida, beliscada, arranhada, espalmada, puxada pelos cabelos... Era como uma luta a cada vez. Às vezes eu levantava aturdido, com falta de ar, colocava a cabeça para fora da janela e respirava o revigorante ar da madrugada para restabelecer as energias. Ela ficava sorrindo maquiavelicamente na cama, sempre me convidando para mais um round.
Encontrei-me com Carmem durante vários dias nos meses seguintes. Existia uma grande cumplicidade entre nós, principalmente em matéria de sexo. Aprendia muito com ela, a cada vez, mas sabia que não era o único homem na jogada, que ela tinha outros amantes, mas raramente tocávamos nesse assunto. Ela apenas fazia questão de deixar as coisas bem claras me dizendo que não gostava de ser exclusiva de ninguém. Eu então me esforçava para não me envolver emocionalmente, pois sabia que se me apaixonasse, seria o fim de tudo. Mas como infelizmente fui incapaz de controlar meus sentimentos, foi exatamente isso o que aconteceu e Carmem se foi para sempre, atrás de outras fantasias... Foi a última lição que ela me deu e que ainda não fui capaz de aprender.


AndreLeza 6:59 PM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Abril 29, 2008


minha cama já não presta,
meu travesseiro desintegrou-se,
já não tenho mais cobertas
e a noite se faz fria.
resolvi dormir no chão,
na maciez dos azulejos,
no aconchego da poeira.
se a noite me quiser,
que me leve daqui em seus braços...
o que não prestar de mim, ficará entregue às formigas.
elas saberão muito bem o que fazer.


AndreLeza 12:49 AM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Dezembro 3, 2007


Então vamos falar novamente de festa. E que FESTA!
E por que não falar sobre um porre, e que PORRE!
Uma casa no meio da floresta. Para chegar lá, uma picada subindo pelo morro.
Riacho manso escorrendo sob as cabeleiras verdes das árvores.
Cheguei no começo para aproveitar. Ainda era dia. Sabia que o lugar ficaria cheio
como realmente ficou. O Chope era do bom. Caseiro. Cinco tipos diferentes.
Coisa fina. A festa começa. Mulheres chegando a toda hora. O bate-papo. Mais um chope.
Amigos conversando. Providenciaram um lugar para que fossem depositadas
as pontas de cigarro. Depois de certa hora acho que ninguém mais viu aquilo.
Eu não vi. Mais um chope. Cigarros. A mulher de saia vermelha, estilo cigana da ilha,
passa por mim. Lanço um sorriso. Ela finge que não nota.
Código feminino. Fingiu parecendo que fingia. Começo a ficar alto.
Aumenta a freqüência de cigarro entre os dedos. Outro chope.
Dou uma cambaleada para baixo a fim de encostar-me em uma moita para
uma boa e velha mijada. A garganta sempre seca. Casa ficando cada vez mais cheia.
Fumaça. Som nas alturas. Gente. Chope, chope e chope.
Um leve tornado, a princípio rodopiando de leve, nasce por dentro do estômago.
Olhos vermelhos. Fodeu! Outro chope? Melhor não. Mas inevitavelmente surge outro nas mãos.
Caminho para a saída. Passo por várias pessoas e não consigo ver ninguém.
Mas ela eu consigo ver. A dama da saia esvoaçante e vermelha pela noite.
Sempre com um copo na mão e o olhar fixo em algum lugar.
Dessa vez o teu olhar passou pelos meus.
Foi como um clarão no meio da mata escura.
Um norte para aquele mar já agitado. Suspirei. Ela passou.
E passou. Ah, maldito tornado no estômago. Recomeça a zonzeira.
Sempre pode acontecer nas horas mais remotas da madrugada,
um momento ideal para uma fulga estratégica, ainda com dignidade.
Então consigo sair daquilo tudo, não sem antes providenciar mais um copo cheio.
Estou na trilha para baixo, no meio da mata. Escuridão total.
Encosto arfando em alguma árvore, tragando ar pela boca.
A garganta incrivelmente segue seca.
De repente vem a golfada, de uma vez, sem avisar.
Vomito algo contínuo e de cor familiar. A cor daquelas
malditas sopas de fubá que eu devorava na merenda escolar, quando era criança.
Continuo descendo. Aquele gosto amargo na boca sempre me lembra
um porre de conhaque que tomei pela primeira e última vez na vida.
O tornado a essa altura já largou o estomago e chacoalhou o cérebro.
Avisto meu carro. Existem vários outros em volta.
Caralho, jamais conseguiria sair dali naquele estado.
Devia ter ficado lá em cima pela festa e me encostado em algum canto.
Tarde demais pra voltar. Entro no mato e sento em uma pedra
na beira do riachinho. A cabeça tomba naturalmente e novas golfadas
de vômito se sucedem. Perdi a noção de quanto tempo fiquei ali.
Impossível ter consciência das horas quando se está reduzido a inseto.
Um inseto bêbado e rastejante. Mas não! Um inseto seria capaz de sentir tesão?
Pois eu sentia. Cada vômito era como um troféu. Um porre de chope caseiro
na casa da floresta. E sempre ela no pensamento, naquele vestido esvoaçante vermelho.
Consigo enfim entrar no carro e partir. O que pode fazer um homem em um
estado desses a não ser tomar o caminho de casa?
Por alguns instantes me sinto bem. Mas só por alguns instantes.
O tornado vem novamente. Caralho, a estrada não tem acostamento.
É morro dos dois lados. Onde vou parar? Já era.
Uma nova golfada vem com toda a força e eu vomito
no meu próprio colo. Faço um esforço danado para não perder a direção.
Sinto o vômito quente e mórbido encharcar as pernas. Que situação deplorável!
Se é que existe uma força divina, consigo através dela guiar meu carro
até minha casa. Lá estou eu na garagem, todo encharcado de vômito.
O dia começa a romper a escuridão. Saio do carro de mansinho, na esperança de
que nenhum morador me veja. Mas puta que o pariu, a senhora do terceiro andar,
mãe da síndica, já está acordada feito um zumbi, no saguão de entrada do prédio.
Que prazer essas pessoas de mais idade sentem ao levantarem o rabo cedo da cama
em pleno sábado de manhã? Fico agachado atrás de um fusca amarelo. Se ela me vir
naquele estado, estarei frito. Na certa me confundiria com algum bandido e faria
o maior alarde. Escuto seus passos bem próximos de mim. Em seguida eles param.
Depois recomeçam distanciando-se. Escuto a porta do elevador se abrindo e depois fechando.
Estou salvo! Salto para fora do esconderijo e entro pela escadaria. Acho que foram uns três
ou quatro tropeções na subida até o terceiro andar. Os tombos quase me fazem perder os dentes.
Imediatamente me vem à mente um sonho que tenho repetidas vezes,
em que apareço banguela na escola e todos caçoam de mim. Merda.
Consigo atingir a porta do meu apartamento. Estou salvo!
Olho para o tapete da casa e sinto que ali é o lugar para a minha convalescença.
Desmaio por ali mesmo. Em meu sonho de bêbado, eu apareço outra vez na escola.
Sétima ou oitava série. Lá estou eu sorrindo para todos o meu sorriso sem dentes de banguela.
Entre os moleques que estão a minha frente, uma menina vomita e sai correndo.
Ela usa uma saia vermelha e, conforme corre contra o vento, ele se tornava esvoaçante.
Vai sumindo diante de mim, sumindo, sumindo... Para sempre.
Será?


AndreLeza 10:11 PM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Novembro 26, 2007


Alguém me encontra no bate papo da internet e me pergunta como vai a vida. Eu respondo que é a mesma vidinha besta de sempre. Acordo, dou uma mijada, olho a cara amassada no espelho, praguejo algumas palavras e vou trabalhar. Oito horas na frente do computador. As infernais oito horas diárias, cinco dias por semana. Sapos e mais sapos engolidos vorazmente. Tudo isso para quê? Para se ter o direito de morar em um lugar limpo e decente, dirigir um carro por aí e encher a cara aos finais de semana. Então a vidinha continua a mesma, nada muda. E até que se é possível ser feliz em meio a isso tudo, não sei bem como. Somos mesmo um bando de cus e bocas, comendo, cagando e fodendo o tempo todo. Nada mais que isso. Uma ou outra coisa acontece de vez em quando, além do script. Ontem, uma festa de casamento. Pessoal do trabalho. Todos se esforçando em fazer poses e o puxa-saquismo correndo solto. Acho que é por isso que nessas horas eu me ferro na cerveja. Detesto festinhas formais. O jeito é ligar o interruptor do “foda-se” e se encharcar na birita. Beliscar a bunda da irmã da noiva é deveras perigoso, mas pode ser uma saída para salvar a noite. Colocar uma flor no decote da mulher mais peituda da festa também pode ser excitante. Lembro-me de ter sido um cruzar de pernas e um chacoalhar de nádegas considerável, mas acabei mesmo voltando cedo pra casa, e sozinho. Ah, essa merda de script, quem foi que escreveu isso? O computador na escrivaninha já estava ligado. Foi só escolher um repertório musical e apertar o play. Me atirei na cama. Não foi possível nem bater uma bronha, o sono veio pesado e me levou. É, a vidinha continua a mesma de sempre. E alguém tem dúvidas quanto a isso?

AndreLeza 12:18 AM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Novembro 2, 2007


Chico era meu amigo de baladas, um dos poucos que eu tinha naquela época.
Era uma pessoa bacana, apreciava uma boa música como eu e gostávamos de sair para vadiar pela cidade atrás de diversão. Ele era desesperadamente viciado em sexo e gastava boa parte de sua energia na tentativa de conquistar uma boa trepada.
Eu também adorava uma trepada, mas não ficava tão aflito como ele ficava quando
nada conseguia. Quando isso acontecia, ele ficava depressivo e torrava o seu parco salário de professor em algum puteiro no centro da cidade. Eu nunca pagava por sexo,
mesmo nos tempos difíceis. Não conseguia relacionar o sexo a uma mercadoria
e, a única vez em que fiz isso, não fui bem sucedido, de nada valeu.
Chico costumava se gabar e contar vantagens:
- Zé, você é muito devagar com as mulheres. Não sabe argumentar,
não tem a manha da conquista.
De fato ele tinha razão. Eu nunca fui um bom galanteador e não era bom de lábia.
Ficava na minha, tomando a minha bebida. Se alguma garota aparecesse para uma conversa, eu até me soltava, mas se não aparecesse, eu raramente tomava a iniciativa.
Chico já era de chegar em todas para conversar e eu pegava carona.
Julgava que fazíamos uma boa parceria e costumava a brincar:
- É isso aí Chico, você chega com a filosofia e eu introduzo a matemática.
Algumas vezes me dava bem com essa estratégia.

Naquela noite estávamos em uma festa à fantasia. Era dia das bruxas, estávamos na ilha da magia (sugestivo, não?) e havia várias espécies delas por ali. Não apenas bruxas como também diabas, ciganas, mortas-vivas, estavam todas ali. Algumas bandas de rock tocavam em um palco improvisado e a cerveja era liberada. Chico e eu chegamos e ele logo ficou eufórico.
- Viu só Zé? Quanta gata, bicho!
- Pois é Chico, podemos nos dar bem.
Começamos a bebericar e a admirar as mulheres da festa. Percebi que meu amigo começou a ficar aflito. O tempo passava e ele não conseguia se dar bem, apesar de algumas tentativas. Aquilo realmente o consumia.
- Calma Chico, você gasta muita energia desnecessária por nada.
- Porra cara, eu sou assim, um devasso mesmo, sei disso!
Foi quando senti a dor de uma pisada em cheio no meu pé. Segurei o grito, mas fiquei
puto ao deixar o copo de cerveja ainda cheio cair no chão.
- Ah, desculpe-me! - ela disse.
Era uma espécie de diaba vestida de vermelho, batom vermelho e uma maquiagem branca no rosto. Estava com um vestidinho curto, deixando a mostra um belo par de pernas. Segurava um tridente em uma das mãos.
- Não foi nada, querida - disse eu disfarçando e abaixando para pegar o meu copo no chão.
- É que eu estava passando e não vi você.
- É, realmente está um tanto escuro por aqui.
Ela ficou parada me olhando. Percebi que alguma coisa em mim lhe havia agradado. Então mandei:
- Minha avó me dizia que se eu não fosse um bom menino, o diabo me pegaria pelo pé.
Se soubesse que seria uma diabona como você, teria sido um mal menino há mais tempo.
Ela sorriu. Senti que havia ganhado a parada. Fiquei surpreso comigo mesmo.
- Pois é, acho que serei obrigado a seqüestrar a tua alma - ela disse.
- A minha alma você pode levar de graça, quanto ao corpo, negociamos no decorrer da noite.
Nos abraçamos e nos beijamos loucamente. Um beijo e um abraço bem dado realmente podem dizer mais que qualquer meia dúzia de papo furado. Essa era a matemática a que eu me referia. Então lembrei do Chico. Olhei em volta e não o vi. Depois de algum tempo o encontrei sozinho e entristecido em um canto da festa.
- E aí Chico, você não é o fodão? Onde está a mulherada?
- Você só teve sorte, meu amigo.
Sorte ou não, fui embora dali com uma linda espécie das profundezas. Eu sabia que
mesmo não sendo um bom galanteador, a noite às vezes podia me proporcionar um bom resultado. No meu subconsciente, ainda podia ouvir o Chico desesperado dizendo repedidas vezes: "Eu sou um devasso, eu sou um devasso!" Lembrei-me também de uma velha canção do Walter Franco que dizia: "Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo." Ele não estava enganado.


AndreLeza 7:02 PM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Outubro 24, 2007


Manuela, ah doce Manu, sempre soube como me surpreender quando quis.
Eu naquela festa que já se acabava quando anunciaram que se passava das três da manhã. Muita gente desinteressante, mas o chope estupidamente gelado, o que me fez ir ficando. Foi quando o celular apontou uma mensagem dela. “Onde está você?” Ah Manu, chegando mais uma vez de surpresa! Na certa pensava me surpreender com outra mulher, só para me deixar embaraçado. Mas eu estava só e gostei quando ela apareceu. Linda e de medidas certeiras, Manu sempre foi uma mulher de pouquíssimas palavras, sendo que as poucas que usava eram ditas na hora certa e de maneira conveniente. Isso me atraía nela.
Chegou me abraçando:
- José Luiz, meu safado!
- Oi minha vadia querida.
Gostava do jeito como pronunciava o meu nome, dando ênfase em cada sílaba, formando um nome só: “Jo-sé-Lu-iz”, muito diferente do simples “Zé” como me chamavam. Ela sabia como me provocar.
Por ali ficamos entrelaçados, o abraço forte, o beijo prolongado, os corpos desejando cada vez mais um ao outro. Em pouco tempo já estávamos longe dali, em um barracão de madeira à beira de um rio, afastado da cidade, que eu havia arranjado como abrigo para aquela noite. Quando me vi já estávamos na cama, com Maluzinha louca por cima de mim, me apertando inteiro, os beijos cada vez mais fortes.
Ela tinha as suas particularidades. Cada transa parecia como se fosse a primeira, como se os corpos estivessem se conhecendo, se descobrindo naquela hora. Adorava uma boa preliminar, quando os corpos transam ainda com roupas. Relutava em tirá-las assim rapidamente, o que sempre exigia de mim uma destreza fora do comum. Enquanto nós dois não estivéssemos desesperados um pelo outro, ela não cedia.
- Não meu amor, ainda não seu puto!
- Ah Manu, o que eu faço contigo?
- O que você quiser, mas ainda não!
Não foram poucas as vezes em que eu melei minha própria cueca antes mesmo de chegar a tirá-la. Mas de repente, outra vez me surpreendendo, ela se despia ficando apenas de calcinha. Vadia, safada, sabia de minha tara por arrancá-la eu mesmo com os próprios dentes! Nessa noite cheguei a rasgá-la, tamanha a minha aflição.
- Ai seu tarado, vai com calma... Ohhh...
A penetração era sempre como o tocar de sinos ou como o auge de uma orquestra sinfônica, quando todos os instrumentos entram com força ao mesmo tempo. Ela olhava profundamente em meus olhos, enquanto galopava por cima de mim, ao ritmo da sinfonia.
- Eu te adoro! Eu te adoro!
Seus olhos verdes me alucinavam. Aquilo realmente mexia demais comigo.
Manu tinha das suas excentricidades. Gostava de me morder quando atingia o orgasmo, mas naquela noite ela exagerou um pouquinho. Foi uma mordida com toda a fome do mundo, deixando uma marca roxa e gigante em todo o meu ombro esquerdo.
- Assim não se esquecerá de mim, até a próxima vez que nos vermos, sabe-se lá quando.
Diaba! Ela realmente conseguiu o que queria.
E eu também...


AndreLeza 12:00 AM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Outubro 8, 2007


A biografia de Charles Bukowski tem me revelado
o quão canalha ele era quando estava embriagado.
Exatamente como em seus contos que, apesar de incrivelmente
diretos e bem escritos, são carregados de amargor, ironias e grosserias.
Bukowski realmente não suportava a raça humana, mas isso quando bebia.
Sóbrio, ele estava pronto para elogiar os outros, era gentil
e conseguia ser mais amável. Incrível como o álcool alterava a
personalidade deste escritor de Factotum, Notas de um Velho Safado,
Misto Quente, entre outros livros de contos, poemas e romances.
Mas Bukowski foi incrível, um gênio como muitos de sua época
declaravam. Conseguia ser intenso e claro em sua narrativa,
ao mesmo tempo em que era underground, contra os padrões sociais vigentes.
Um mestre na arte de escrever contos e histórias.
Mas, como se sabe, era um beberrão que adorava confusões,
brigas e escândalos. Noventa e oito por cento de sua obra possui
caráter autobiográfico. Eu que às vezes gosto de escrever,
me inspiro abertamente na sua maneira de escrever contos, porém não
tenho e nem pretendo ter a vivência etília conturbada do velho safado.
Particularmente me considero um bom bêbado, apesar de às vezes
me tornar extremamente patético, principalmente com as mulheres.
Mas isso já são outras estórias...


AndreLeza 2:01 PM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Outubro 7, 2007


lá vou eu de novo com minha bicicleta pelas ruas da cidade.
a noite cresce vigorosa com seus frescores primaveris.
meninas bonitas exibem-se pelas ruas com seus cachorrinhos
perfumados, empinando seus narizinhos perfeitinhos
ao me verem passar. mais uma árdua semana se passara
e eu agora era novamente livre.
dou a volta pelo mangue sentindo o vento ainda meio frio
bater em meu rosto. tomo a ciclovia à beira-mar a todo vapor.
pedalar relaxa, faz os pensamentos multiplicarem-se na mente.
uma parada estratégica no bar, ver alguns amigos, o mesmo papo furado,
tomar uma gelada, essa era a pedida da noite.
no engarrafamento do trânsito, passo cortando os carros,
notando rostos angustiados com pressa para chegar em casa.
as pessoas vivem com pressa. anseiam em chegar logo, em comer logo,
em fazer amor logo, em beber logo, em dormir logo...
a vida passa depressa demais quanto mais pressa se tem.
e eu pedalando também com pressa, a medida em que a garganta vai secando.
porra, será que tenho que me foder a semana inteira em um escritório,
engolir sapos e me estressar na frente de um computador,
para depois ainda ter que ter pressa em aproveitar o curto final de semana?
vida maluca, sempre passando com pressa.
inclusive tive muita dela ao sorver o primeiro gole de cerveja.
o que seria dessa miserável vida se não fosse a cerveja?
não consigo entender como existem pessoas que não bebem.
vivem a mesma vidinha, têm as mesmas pressas em tudo,
e não se dão ao prazer de beber uma cerveja ao fim do dia.
em casa, devem se enfurnar em salas confortáveis em frente
a caros aparelhos de tv. devem sair com suas bem arrumadas esposas
para shopping centers, tomar sorvetes e assistir filmes nojentos.
eu prefiro ir ao bar encher a cara.
seria a bebida uma muleta ou uma necessidade?
seja como for, depois de várias doses peguei a magrela e retornei
pra casa. estou pensando seriamente em jogar meu televisor fora.
coloco música clássica no som e vou dormir.
acho que estou com pressa em não acordar mais...


AndreLeza 10:54 PM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Setembro 20, 2007


- Presidente, socorre eu! Presidente, socorre eu!

Gente simples, lavrador desempregado e doente, mãos calejadas,
quatro filhos para alimentar e vários dias sem comer.
Os seguranças o imobilizaram no chão, como se fosse um bicho, um cão raivoso.
Ele pretendia entrar no palácio do planalto para pedir ajuda ao presidente.
Em sua simplicidade, acreditava que o presidente em quem ele provavelmente votou,
também de origem humilde, o receberia e o ajudaria.
Mas não, em sua volta apenas hostilidade encontrou.
Corpulentos seguranças e meia dúzia de homens engravatados que nada faziam.
Alguns até deviam esboçar sorrisos irônicos, enquanto ajeitavam suas
caras gravatas que o humilde lavrador certamente precisaria de um duro
ano na roça para conseguir adquirir.

Não, ele não conseguiu falar com o presidente.
Em uma ambulância, foi levado para sabe-se lá onde.
A sua angústia, a dor em seu peito, a sua aflição,
refletia naquele momento a dor de milhares de brasileiros
na mesma situação em que ele se encontrava.

Assim que se foi, o ritmo no planalto se normalizou e
ninguém mais por lá se lembrará dele...

Mas e se ao lado dele, naquele momento, estivessem os outros milhões
de miseráveis brasileiros? O final teria sido esse?


AndreLeza 1:53 PM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Maio 6, 2007


Lá vinha ele de novo pela marina, carregando pesados galões
de óleo diesel que serviriam aos motores dos barcos.
Outras vezes era visto varrendo o trapiche ou fazendo
faxina em algum dos barcos, sempre em busca de uns trocados.
O seu único objetivo era batalhar o pão do dia, sem pensar muito no amanhã.
Há cinco anos, desde que se separou da mulher, decidiu ir morar na rua,
ao relento, tendo o sol do dia como amigo e as estrelas da noite como abrigo.
Da ex-mulher, ficou o ressentimento devido a cruel traição que sofrera.
Sua maior paixão mesmo era sua filhinha, que ficou morando com a mãe.
Toda semana, uma parte do parco dinheiro que conseguia vivendo de biscate,
era enviado através de um amigo para a sua ex-mulher, a fim de contribuir
com as despesas da filha. Não foram raras as vezes em que passou fome
para cumprir com essa obrigação.
Naquela tarde de sábado ele andava todo radiante,
feliz em um mês de maio de um céu azul sem fim.
Sua filhinha completaria dez anos de idade, e como presente,
a levaria para um bom rodízio de pizza em um restaurante ali perto.
Tomou um belo banho de ducha atrás do posto de gasolina
e até usou um perfume que conseguira emprestado.
Tinha que estar bem cheiroso e limpinho para agradar a filhota.
E lá foram eles de mãos dadas para o restaurante:
ela toda feliz ao lado do pai que tanto amava,
ele todo abobado e orgulhoso,
apresentando a filha para os conhecidos,
dizendo ser sua princesa, sua jóia preciosa.
Comeram pizza, tomaram sorvete, passearam pela praça...
Se abraçaram e se sorriram.
A noite já ia caindo tarde quando ele disse à filha que precisaria deixá-la no
ponto de ônibus para que ela voltasse para a casa da mãe.
Ela reprovou a idéia, dizendo que estava se divertindo muito e que desejava
ficar com o pai naquela noite.
Ele sentiu um aperto no peito.
Não tinha uma cama confortável para abrigar a filha,
muito menos paredes e teto para protegê-la do frio.
O que ele tinha era uma colchonete
velha e um cobertor idem, que deixava escondido atrás da banca de revista.
Esperava a banca fechar para poder ir se deitar por ali mesmo.
Foi sincero com a filha, explicando a situação.
Ela não se importou,
disse que amava muito seu pai e se era daquele jeito que seu pai dormia,
seria daquele jeito que ela dormiria também.
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
Naquela noite, assim que a banca de jornais fechou e a luz se apagou,
foram os dois para o "quarto" e deitaram-se.
Ele beijou a testa dela com ternura desejando-lhe boa noite,
ao que ela respondeu com um sorriso.
Ao piar da coruja, fechou-se a cortina,
pai e filha ninaram um sono tranqüilo de amor fraterno,
de alegria desmedida, e a noite terminou assim,
quente e feliz.


AndreLeza 8:11 PM
||| Comente aqui:

-- / / / --

Abril 28, 2007


A noite sabe muito bem o que fazer nessas horas.

Faz a lua despontar
linda e soberana,
saracoteando os brilhos de cristais
nas águas da lagoa.

Faz o vento soprar seu estribilho,
entre bares e canções.

Da praça, o som cheio de graça,
chorando nossas belezas que não morrem jamais.

Violões, pandeiros e acordeões.

Por vezes, um batuqueiro de canto de mesa,
as mãos espalmadas, espontâneas,
tocam mansinho, quase caladas.

Alguém arrisca uma caixa de fósforo,
outros dobram em ré uma harmonia em mi.

Ouve-se o tilintar de copos
em garrafas de cerveja.

A orquestra está pronta!

Enquanto a noite vai agindo,
mansa e lentamente,
nos remetemos a uma fogueira gigante,
com pessoas de mãos dadas,
a ciranda, atabaques em fúria,
rodas de saia no ar,
a volta fazendo volta pro mesmo lugar.

ah, a noite faz, transcende!

transforma gente em grilo,
instrumentos em passarinhos,
sorrisos em oração.

caem as estrelas no mar,
a noite
transforma-se
em canção!


AndreLeza 1:10 AM
||| Comente aqui:

-- / / / --


com as pupilas dilatadas


Arquivos


+ Blogs +

[ O Cabuloso Destino ]

[ Mosaicos de Prosa ]

[ sim, one more please ]

[ Donana ]

[ DosMatos ]

+++

Contatos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?