Lá vinha ele de novo pela marina, carregando pesados galões
de óleo diesel que serviriam aos motores dos barcos.
Outras vezes era visto varrendo o trapiche ou fazendo
faxina em algum dos barcos, sempre em busca de uns trocados.
O seu único objetivo era batalhar o pão do dia, sem pensar muito no amanhã.
Há cinco anos, desde que se separou da mulher, decidiu ir morar na rua,
ao relento, tendo o sol do dia como amigo e as estrelas da noite como abrigo.
Da ex-mulher, ficou o ressentimento devido a cruel traição que sofrera.
Sua maior paixão mesmo era sua filhinha, que ficou morando com a mãe.
Toda semana, uma parte do parco dinheiro que conseguia vivendo de biscate,
era enviado através de um amigo para a sua ex-mulher, a fim de contribuir
com as despesas da filha. Não foram raras as vezes em que passou fome
para cumprir com essa obrigação.
Naquela tarde de sábado ele andava todo radiante,
feliz em um mês de maio de um céu azul sem fim.
Sua filhinha completaria dez anos de idade, e como presente,
a levaria para um bom rodízio de pizza em um restaurante ali perto.
Tomou um belo banho de ducha atrás do posto de gasolina
e até usou um perfume que conseguira emprestado.
Tinha que estar bem cheiroso e limpinho para agradar a filhota.
E lá foram eles de mãos dadas para o restaurante:
ela toda feliz ao lado do pai que tanto amava,
ele todo abobado e orgulhoso,
apresentando a filha para os conhecidos,
dizendo ser sua princesa, sua jóia preciosa.
Comeram pizza, tomaram sorvete, passearam pela praça...
Se abraçaram e se sorriram.
A noite já ia caindo tarde quando ele disse à filha que precisaria deixá-la no
ponto de ônibus para que ela voltasse para a casa da mãe.
Ela reprovou a idéia, dizendo que estava se divertindo muito e que desejava
ficar com o pai naquela noite.
Ele sentiu um aperto no peito.
Não tinha uma cama confortável para abrigar a filha,
muito menos paredes e teto para protegê-la do frio.
O que ele tinha era uma colchonete
velha e um cobertor idem, que deixava escondido atrás da banca de revista.
Esperava a banca fechar para poder ir se deitar por ali mesmo.
Foi sincero com a filha, explicando a situação.
Ela não se importou,
disse que amava muito seu pai e se era daquele jeito que seu pai dormia,
seria daquele jeito que ela dormiria também.
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
Naquela noite, assim que a banca de jornais fechou e a luz se apagou,
foram os dois para o "quarto" e deitaram-se.
Ele beijou a testa dela com ternura desejando-lhe boa noite,
ao que ela respondeu com um sorriso.
Ao piar da coruja, fechou-se a cortina,
pai e filha ninaram um sono tranqüilo de amor fraterno,
de alegria desmedida, e a noite terminou assim,
quente e feliz.