Manuela, ah doce Manu, sempre soube como me surpreender quando quis.
Eu naquela festa que já se acabava quando anunciaram que se passava das três da manhã. Muita gente desinteressante, mas o chope estupidamente gelado, o que me fez ir ficando. Foi quando o celular apontou uma mensagem dela. “Onde está você?” Ah Manu, chegando mais uma vez de surpresa! Na certa pensava me surpreender com outra mulher, só para me deixar embaraçado. Mas eu estava só e gostei quando ela apareceu. Linda e de medidas certeiras, Manu sempre foi uma mulher de pouquíssimas palavras, sendo que as poucas que usava eram ditas na hora certa e de maneira conveniente. Isso me atraía nela.
Chegou me abraçando:
- José Luiz, meu safado!
- Oi minha vadia querida.
Gostava do jeito como pronunciava o meu nome, dando ênfase em cada sílaba, formando um nome só: “Jo-sé-Lu-iz”, muito diferente do simples “Zé” como me chamavam. Ela sabia como me provocar.
Por ali ficamos entrelaçados, o abraço forte, o beijo prolongado, os corpos desejando cada vez mais um ao outro. Em pouco tempo já estávamos longe dali, em um barracão de madeira à beira de um rio, afastado da cidade, que eu havia arranjado como abrigo para aquela noite. Quando me vi já estávamos na cama, com Maluzinha louca por cima de mim, me apertando inteiro, os beijos cada vez mais fortes.
Ela tinha as suas particularidades. Cada transa parecia como se fosse a primeira, como se os corpos estivessem se conhecendo, se descobrindo naquela hora. Adorava uma boa preliminar, quando os corpos transam ainda com roupas. Relutava em tirá-las assim rapidamente, o que sempre exigia de mim uma destreza fora do comum. Enquanto nós dois não estivéssemos desesperados um pelo outro, ela não cedia.
- Não meu amor, ainda não seu puto!
- Ah Manu, o que eu faço contigo?
- O que você quiser, mas ainda não!
Não foram poucas as vezes em que eu melei minha própria cueca antes mesmo de chegar a tirá-la. Mas de repente, outra vez me surpreendendo, ela se despia ficando apenas de calcinha. Vadia, safada, sabia de minha tara por arrancá-la eu mesmo com os próprios dentes! Nessa noite cheguei a rasgá-la, tamanha a minha aflição.
- Ai seu tarado, vai com calma... Ohhh...
A penetração era sempre como o tocar de sinos ou como o auge de uma orquestra sinfônica, quando todos os instrumentos entram com força ao mesmo tempo. Ela olhava profundamente em meus olhos, enquanto galopava por cima de mim, ao ritmo da sinfonia.
- Eu te adoro! Eu te adoro!
Seus olhos verdes me alucinavam. Aquilo realmente mexia demais comigo.
Manu tinha das suas excentricidades. Gostava de me morder quando atingia o orgasmo, mas naquela noite ela exagerou um pouquinho. Foi uma mordida com toda a fome do mundo, deixando uma marca roxa e gigante em todo o meu ombro esquerdo.
- Assim não se esquecerá de mim, até a próxima vez que nos vermos, sabe-se lá quando.
Diaba! Ela realmente conseguiu o que queria.
E eu também...
A biografia de Charles Bukowski tem me revelado
o quão canalha ele era quando estava embriagado.
Exatamente como em seus contos que, apesar de incrivelmente
diretos e bem escritos, são carregados de amargor, ironias e grosserias.
Bukowski realmente não suportava a raça humana, mas isso quando bebia.
Sóbrio, ele estava pronto para elogiar os outros, era gentil
e conseguia ser mais amável. Incrível como o álcool alterava a
personalidade deste escritor de Factotum, Notas de um Velho Safado,
Misto Quente, entre outros livros de contos, poemas e romances.
Mas Bukowski foi incrível, um gênio como muitos de sua época
declaravam. Conseguia ser intenso e claro em sua narrativa,
ao mesmo tempo em que era underground, contra os padrões sociais vigentes.
Um mestre na arte de escrever contos e histórias.
Mas, como se sabe, era um beberrão que adorava confusões,
brigas e escândalos. Noventa e oito por cento de sua obra possui
caráter autobiográfico. Eu que às vezes gosto de escrever,
me inspiro abertamente na sua maneira de escrever contos, porém não
tenho e nem pretendo ter a vivência etília conturbada do velho safado.
Particularmente me considero um bom bêbado, apesar de às vezes
me tornar extremamente patético, principalmente com as mulheres.
Mas isso já são outras estórias...
lá vou eu de novo com minha bicicleta pelas ruas da cidade.
a noite cresce vigorosa com seus frescores primaveris.
meninas bonitas exibem-se pelas ruas com seus cachorrinhos
perfumados, empinando seus narizinhos perfeitinhos
ao me verem passar. mais uma árdua semana se passara
e eu agora era novamente livre.
dou a volta pelo mangue sentindo o vento ainda meio frio
bater em meu rosto. tomo a ciclovia à beira-mar a todo vapor.
pedalar relaxa, faz os pensamentos multiplicarem-se na mente.
uma parada estratégica no bar, ver alguns amigos, o mesmo papo furado,
tomar uma gelada, essa era a pedida da noite.
no engarrafamento do trânsito, passo cortando os carros,
notando rostos angustiados com pressa para chegar em casa.
as pessoas vivem com pressa. anseiam em chegar logo, em comer logo,
em fazer amor logo, em beber logo, em dormir logo...
a vida passa depressa demais quanto mais pressa se tem.
e eu pedalando também com pressa, a medida em que a garganta vai secando.
porra, será que tenho que me foder a semana inteira em um escritório,
engolir sapos e me estressar na frente de um computador,
para depois ainda ter que ter pressa em aproveitar o curto final de semana?
vida maluca, sempre passando com pressa.
inclusive tive muita dela ao sorver o primeiro gole de cerveja.
o que seria dessa miserável vida se não fosse a cerveja?
não consigo entender como existem pessoas que não bebem.
vivem a mesma vidinha, têm as mesmas pressas em tudo,
e não se dão ao prazer de beber uma cerveja ao fim do dia.
em casa, devem se enfurnar em salas confortáveis em frente
a caros aparelhos de tv. devem sair com suas bem arrumadas esposas
para shopping centers, tomar sorvetes e assistir filmes nojentos.
eu prefiro ir ao bar encher a cara.
seria a bebida uma muleta ou uma necessidade?
seja como for, depois de várias doses peguei a magrela e retornei
pra casa. estou pensando seriamente em jogar meu televisor fora.
coloco música clássica no som e vou dormir.
acho que estou com pressa em não acordar mais...