Dezembro 3, 2007


Então vamos falar novamente de festa. E que FESTA!
E por que não falar sobre um porre, e que PORRE!
Uma casa no meio da floresta. Para chegar lá, uma picada subindo pelo morro.
Riacho manso escorrendo sob as cabeleiras verdes das árvores.
Cheguei no começo para aproveitar. Ainda era dia. Sabia que o lugar ficaria cheio
como realmente ficou. O Chope era do bom. Caseiro. Cinco tipos diferentes.
Coisa fina. A festa começa. Mulheres chegando a toda hora. O bate-papo. Mais um chope.
Amigos conversando. Providenciaram um lugar para que fossem depositadas
as pontas de cigarro. Depois de certa hora acho que ninguém mais viu aquilo.
Eu não vi. Mais um chope. Cigarros. A mulher de saia vermelha, estilo cigana da ilha,
passa por mim. Lanço um sorriso. Ela finge que não nota.
Código feminino. Fingiu parecendo que fingia. Começo a ficar alto.
Aumenta a freqüência de cigarro entre os dedos. Outro chope.
Dou uma cambaleada para baixo a fim de encostar-me em uma moita para
uma boa e velha mijada. A garganta sempre seca. Casa ficando cada vez mais cheia.
Fumaça. Som nas alturas. Gente. Chope, chope e chope.
Um leve tornado, a princípio rodopiando de leve, nasce por dentro do estômago.
Olhos vermelhos. Fodeu! Outro chope? Melhor não. Mas inevitavelmente surge outro nas mãos.
Caminho para a saída. Passo por várias pessoas e não consigo ver ninguém.
Mas ela eu consigo ver. A dama da saia esvoaçante e vermelha pela noite.
Sempre com um copo na mão e o olhar fixo em algum lugar.
Dessa vez o teu olhar passou pelos meus.
Foi como um clarão no meio da mata escura.
Um norte para aquele mar já agitado. Suspirei. Ela passou.
E passou. Ah, maldito tornado no estômago. Recomeça a zonzeira.
Sempre pode acontecer nas horas mais remotas da madrugada,
um momento ideal para uma fulga estratégica, ainda com dignidade.
Então consigo sair daquilo tudo, não sem antes providenciar mais um copo cheio.
Estou na trilha para baixo, no meio da mata. Escuridão total.
Encosto arfando em alguma árvore, tragando ar pela boca.
A garganta incrivelmente segue seca.
De repente vem a golfada, de uma vez, sem avisar.
Vomito algo contínuo e de cor familiar. A cor daquelas
malditas sopas de fubá que eu devorava na merenda escolar, quando era criança.
Continuo descendo. Aquele gosto amargo na boca sempre me lembra
um porre de conhaque que tomei pela primeira e última vez na vida.
O tornado a essa altura já largou o estomago e chacoalhou o cérebro.
Avisto meu carro. Existem vários outros em volta.
Caralho, jamais conseguiria sair dali naquele estado.
Devia ter ficado lá em cima pela festa e me encostado em algum canto.
Tarde demais pra voltar. Entro no mato e sento em uma pedra
na beira do riachinho. A cabeça tomba naturalmente e novas golfadas
de vômito se sucedem. Perdi a noção de quanto tempo fiquei ali.
Impossível ter consciência das horas quando se está reduzido a inseto.
Um inseto bêbado e rastejante. Mas não! Um inseto seria capaz de sentir tesão?
Pois eu sentia. Cada vômito era como um troféu. Um porre de chope caseiro
na casa da floresta. E sempre ela no pensamento, naquele vestido esvoaçante vermelho.
Consigo enfim entrar no carro e partir. O que pode fazer um homem em um
estado desses a não ser tomar o caminho de casa?
Por alguns instantes me sinto bem. Mas só por alguns instantes.
O tornado vem novamente. Caralho, a estrada não tem acostamento.
É morro dos dois lados. Onde vou parar? Já era.
Uma nova golfada vem com toda a força e eu vomito
no meu próprio colo. Faço um esforço danado para não perder a direção.
Sinto o vômito quente e mórbido encharcar as pernas. Que situação deplorável!
Se é que existe uma força divina, consigo através dela guiar meu carro
até minha casa. Lá estou eu na garagem, todo encharcado de vômito.
O dia começa a romper a escuridão. Saio do carro de mansinho, na esperança de
que nenhum morador me veja. Mas puta que o pariu, a senhora do terceiro andar,
mãe da síndica, já está acordada feito um zumbi, no saguão de entrada do prédio.
Que prazer essas pessoas de mais idade sentem ao levantarem o rabo cedo da cama
em pleno sábado de manhã? Fico agachado atrás de um fusca amarelo. Se ela me vir
naquele estado, estarei frito. Na certa me confundiria com algum bandido e faria
o maior alarde. Escuto seus passos bem próximos de mim. Em seguida eles param.
Depois recomeçam distanciando-se. Escuto a porta do elevador se abrindo e depois fechando.
Estou salvo! Salto para fora do esconderijo e entro pela escadaria. Acho que foram uns três
ou quatro tropeções na subida até o terceiro andar. Os tombos quase me fazem perder os dentes.
Imediatamente me vem à mente um sonho que tenho repetidas vezes,
em que apareço banguela na escola e todos caçoam de mim. Merda.
Consigo atingir a porta do meu apartamento. Estou salvo!
Olho para o tapete da casa e sinto que ali é o lugar para a minha convalescença.
Desmaio por ali mesmo. Em meu sonho de bêbado, eu apareço outra vez na escola.
Sétima ou oitava série. Lá estou eu sorrindo para todos o meu sorriso sem dentes de banguela.
Entre os moleques que estão a minha frente, uma menina vomita e sai correndo.
Ela usa uma saia vermelha e, conforme corre contra o vento, ele se tornava esvoaçante.
Vai sumindo diante de mim, sumindo, sumindo... Para sempre.
Será?


AndreLeza 10:11 PM
||| Comente aqui:

-- / / / --


com as pupilas dilatadas


Arquivos


+ Blogs +

[ O Cabuloso Destino ]

[ Mosaicos de Prosa ]

[ sim, one more please ]

[ Donana ]

[ DosMatos ]

+++

Contatos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?