sim, sou louco assim mesmo,
uma pessoa nada convencional,
chegada a tempestades, vinho tinto e solidão.
sou louco por me preocupar com a flor que nunca vi,
nunca toquei, de perfume desconhecido.
sigo o caminho da incerteza,
sem saber onde vai dar, mas sigo em frente,
em busca de algum sabor que nunca provei,
da excitante escuridão que existe dentro do túnel.
não sou chegado a brincadeiras fúteis,
já que as coisas não estão para brincadeiras.
valorizo mais a tristeza sincera
do que toda a felicidade hipócrita deste mundo.
sou amante de pessoas de estilo,
sejam elas boas ou más,
grandes ou pequenas,
mas que tenham estilo!
sim, sou louco assim mesmo...
e por ser louco assim, tão amiúde,
reivindico o meu direito de errar,
de amar, de gozar, de viajar, de idealizar
e até mesmo sorrir!
o sorriso irônico de um louco
sem destino, que sai de casa a noite
simplesmente para beijar a lua.
sou assim.
Naquela época de estudante eu costumava almoçar em um restaurante pé-de-chinelo ali no centro da cidade. A comida não era lá essa coisa, mas o preço se adequava ao meu apertado orçamento. Além disso, lá trabalhava Carmem, a garçonete. Morena de traços fronteiriços, cabelos lisos, pretos e longos, baixinha e dona de umas ancas maravilhosas, com certeza as melhores da redondeza. Passava por mim sempre apressada, segurando bandejas, limpando mesas, carregando garrafas. Não tinha um belo rosto, mas seu rebolado era de uma classe fora do comum e despertava em mim diversas fantasias. Enquanto eu almoçava, sonhava possuí-la ali mesmo, por cima daquelas mesas, sob os olhares incrédulos dos outros fregueses. Ela era bastante assediada, mas parecia não dar bola a ninguém. A moça tinha classe. O tempo foi passando e minhas fantasias com Carmem foram se tornando cada vez mais férteis. Certa madrugada eu caminhava sem destino pelo centro da cidade em busca de algum bar para umas cervejas, quando avistei Carmem. Foi difícil reconhecê-la. Estava em uma esquina, toda produzida, batom bem vermelho e uma saia tentadoramente curtíssima. Lançava olhares e sorrisos sensuais para os carros que passavam por ali indo para algum lugar. Foi difícil acreditar. Carmem, a garçonete, era uma garota de programa. Aproximei-me dela. Quando me viu, pareceu ter me reconhecido e sua face ruboresceu. Não me olhava diretamente nos olhos enquanto eu falava.
- Olá. Você não é a garçonete...
- Era. Aquilo não estava rendendo e eu tenho que pagar minhas contas.
Neste momento um carro parou e um senhor de bigode grisalho colocou a cara para fora e a chamou. Trocaram algumas palavras, Carmem entrou no carro e saíram.
Passei um bom tempo sem vê-la. No restaurante ela nunca mais foi vista, mas eu continuava a sonhar com ela, passando por mim toda afoita naquele avental encardido que acompanhava o seu rebolar rebatador. Às vezes eu passava pela mesma esquina na esperança de encontrá-la, mas nunca mais. Tudo o que eu queria era que ela me olhasse nos olhos e me desse a chance de uma conversa. Algo me dizia que ali havia uma mulher interessante, além é claro dos dotes físicos já descritos.
Um bom tempo passou e eu já até havia parado de pensar em Carmem, quando um amigo que costumava almoçar comigo me disse tê-la visto novamente na função de garçonete, em outro restaurante da região central. No dia seguinte fui almoçar no tal restaurante e lá estava ela, no mesmo carregar de bandejas, o mesmo rebolar, a mesma classe. Quando me viu, deixou escapar um sorriso enquanto caminhava em minha direção para me atender. Que sorriso era aquele? Nunca havia sorrido para mim antes.
- Olá, você por aqui? – perguntou-me ainda sorrindo.
- Sim. Fico feliz por vê-la.
- Eu também – disse e saiu caminhando após anotar meu pedido, lançando um olhar para trás em minha direção.
Eu não podia acreditar, essa seria a minha chance! Antes de ir embora, deixei para ela um bilhetinho com meu telefone e os dizeres: “Preciso falar contigo.” Na mesma noite ela me ligou.
- Mas o que você quer comigo? Eu larguei daquela vida, sabe...
- Não é nada disso. Achei que a gente poderia sair para umas cervejinhas, conversar. Tenho aqui dois convites para um show esta noite.
Ela topou e naquela noite pude realizar meus sonhos. Passamos horas conversando, olhos nos olhos, ao som de uma banda de blues. Não estava enganado em relação à Carmem. Ela era uma moça muito inteligente e tinha uma história de vida e tanto, de luta e sofrimento. Trabalhava para sustentar a mãe que sofria de uma doença terminal. Disse ter encarado a vida de dama-da-noite para poder pagar uma cirurgia para a mãe, mas logo abandonou essa vida quando conseguiu levantar o dinheiro. Conforme a noite avançava e os copos de cerveja se multiplicavam, o nosso assunto foi se tornando mais quente. Contei que há tempos eu a observava e falei inclusive da minha fantasia em possuí-la na mesa do bar. Ela adorou saber daquilo. Beijou-me com força e disse sussurrando em meus ouvidos:
- Eu tenho as chaves do restaurante.
- Você está propondo a gente...
- Sim, saímos daqui e vamos direto para lá. Não há ninguém por lá numa hora dessas.
Já tinha lido em algum livro que quando queremos muito alguma coisa, todo universo conspira ao nosso favor para que aquilo se realize. Fiquei com isso na cabeça enquanto nos dirigíamos ao restaurante. Enquanto o táxi nos levava, Carmem me acariciava e beijava minhas orelhas. Não seria capaz de descrever as loucuras que aconteceram lá dentro e as outras que se sucederam, mas Carmem também tinha as suas fantasias. E que fantasias! Adorava ser mordida, beliscada, arranhada, espalmada, puxada pelos cabelos... Era como uma luta a cada vez. Às vezes eu levantava aturdido, com falta de ar, colocava a cabeça para fora da janela e respirava o revigorante ar da madrugada para restabelecer as energias. Ela ficava sorrindo maquiavelicamente na cama, sempre me convidando para mais um round.
Encontrei-me com Carmem durante vários dias nos meses seguintes. Existia uma grande cumplicidade entre nós, principalmente em matéria de sexo. Aprendia muito com ela, a cada vez, mas sabia que não era o único homem na jogada, que ela tinha outros amantes, mas raramente tocávamos nesse assunto. Ela apenas fazia questão de deixar as coisas bem claras me dizendo que não gostava de ser exclusiva de ninguém. Eu então me esforçava para não me envolver emocionalmente, pois sabia que se me apaixonasse, seria o fim de tudo. Mas como infelizmente fui incapaz de controlar meus sentimentos, foi exatamente isso o que aconteceu e Carmem se foi para sempre, atrás de outras fantasias... Foi a última lição que ela me deu e que ainda não fui capaz de aprender.