Acordei naquela manhã em um banco qualquer de uma praça que não conhecia.
Estava com uma aparência horrível e meus olhos não conseguiam enxergar a luz do sol.
Olhava a rua, as pessoas e tudo estava mergulhado em trevas. Uma escuridão sinistra.
Levantei e tentei caminhar, cambaleante, procurando identificar em que ponto da cidade eu me encontrava.
As ruas me eram estranhas. As casas eram antigas, desbotadas e caiam aos pedaços.
As pessoas passavam por mim apressadas e pareciam não me notar.
Parei um transeunte e indaguei em que lugar eu estava.
Ele me olhou estranhamente, me empurrou e seguiu adiante.
Notei que o idioma que as pessoas falavam era diferente do meu. Uma língua completamente desconhecida.
Por um momento, eu fechei meus olhos com força na esperança de ao abri-los estar acordando
de um pesadelo, mas o esforço foi em vão. Uma chuva fraca começou a cair e um cheiro de mofo,
de folha molhada e coisas velhas me invadiu as narinas. Vaguei por aquela cidade
durante todo o dia, até que me cansei. Sentei-me em um ponto de ônibus e lá fiquei,
esperando encontrar algum carro que me levasse para um bairro conhecido, mas não conseguia sequer ler as placas.
Era inútil pedir informação, as pessoas não me entendiam. Notei que em meio às trevas do dia,
pequenos pontos de luz flutuavam em volta de mim. Quando me atingiam, me causavam uma dor terrível no peito
e sentia náuseas. Saí correndo desesperadamente, feito um louco, passando pelas esquinas
sem olhar para trás. Realmente eu devia estar louco, perdido em um mundo completamente diferente,
onde ninguém seria capaz de me compreender. Entrei em uma rua assustadora,
com casas de papelão, moribundos deitados pelas ruas entre os ratos, esgoto a céu aberto.
Deitei-me entre eles, desesperado, quando avistei de pé em minha frente uma pessoa que destoava
do ambiente cinzento e fétido que me envolvia.
Era uma menina jovem e bonita, de face triste e de uma morbidez misteriosa, o que a deixava ainda mais bela.
- Venha, me dê as mão, vamos sair daqui rapidamente - disse-me ela, no que eu atendi prontamente.
Ela se abaixou, tomando impulso, e saímos voando feito duas almas em direção àquele céu escuro.
Com esforço, desviamos dos fios de energia e ganhamos altura, sobrevoando toda aquela cidade de horror.
Comecei a sentir um frio na barriga e ao mesmo tempo um alívio por estar deixando tudo aquilo para trás.
Olhei para a menina e sua face não esboçava uma única expressão. Estava pálida e aflita como eu.
Sobrevoamos a cidade até que ela ficou para trás e lá embaixo eu já não distinguia mais nada.
Senti que as nossas forças estavam enfraquecendo e fomos perdendo altura, pouco a pouco,
até aterrissarmos no alto de uma montanha, sobre uma imensa pedra negra. Deitamos os dois,
lado a lado, ainda de mãos dadas, e adormecemos exaustos da viagem. Então comecei a sonhar...
Já não existia mais a cidade de trevas, era apenas um campo verde, com lírios brancos por toda parte.
A menina agora estava sorridente, usava uma saia de um branco transparente e se divertia com as borboletas
azuis que a rodeavam. Pude ver que além de bonita, era de uma sensualidade irresistível.
Começamos a bailar feito crianças, naquele campo de borboletas e lírios selvagens, até que nossos olhares
se cruzaram e os lábios se beijaram com desespero, como se nossos corpos fossem dependentes
um do outro naquele momento. Furiosamente, começamos a rasgar nossas vestes, as mãos passeando pelo corpo,
arranhando, apertando, o dentes mordendo selvagemente, como dois animais famintos e bestiais.
Ela sentou-se sobre mim e começou a movimentar-se docemente, enquanto o vento esvoaçava seus cabelos.
Eu desejava jamais acordar daquele sonho! Procurei não pensar em mais em nada,
apenas sentir os prazeres daquele instante mágico.
Raios, relâmpagos e trovões anunciaram a chuva que começava a cair. Era uma chuva de cachos de uva,
que estouravam em nossos corpos, nos lambuzando com seu gosto doce. O chão começou a tremer e a terra a rodar,
rodar, rodar... E como no final de uma sinfonia, quando todos os instrumentos tocam forte e simultaneamente
em uníssono, tudo se desfez imediatamente e o silêncio absoluto reinou.
Não demorou muito até que eu percebesse que estava em meu quarto, deitado ao contrário sobre cama,
com um livro de Dostoievski ao meu lado e algumas de suas páginas amassadas.
Em cima da mesinha, um copo de vinho ainda continha um último gole que não tive tempo
de beber. A cidade de trevas, a menina de face misteriosa e corpo ardente, o campo de lírios,
as doces uvas que vinham do céu... Tudo se desfazia em uma manhã típica de domingo.
Fiquei um bom tempo ali, sem me mexer, refletindo sobre aquele sonho.
Não seria melhor ser um louco em uma cidade de trevas,
onde é tênue a linha que separa o paraíso do inferno, do que viver em um mundo completamente previsível?
Não seriam os loucos os únicos a usufruirem da plena felicidade?
Fiquei nessa até que minha bexiga pareceu estourar, fazendo-me levantar em um sobressalto.
Esbarrei o pé na mesinha e a taça de vinho foi-se espetifar no chão.
- Merda! - assim começou meu dia no reino dos normais.