Eu já tinha rodado por quase todos os bares àquela noite...
Sozinho, com as mãos no bolso, já pensava em voltar para casa
quando ouvi aquela música e um monte de gente aglomerada na porta
daquele bar. As mulheres, aos batalhões, sorriam e se amontoavam na fila de entrada.
Era muita mulher mesmo! Eu pensei: "Uau, esse bar deve estar interessante!" E entrei.
Era uma casa de dança e a música era um tipo de forro eletrificado, desses que
se chamam de "forró universitário." Merda! Eu em minha eterna timidez, jamais
fui capaz de me interessar por dança, apesar de gostar eternamente de música.
Dançar para mim sempre foi uma coisa desnecessária, mas naquela noite,
com tantas mulheres belas ao meu redor, como seria bom ter domínio
sobre essa seqüência de movimentos corporais ritmados.
E lá fui eu para o melhor lugar do bar: o balcão. Só me restava beber umas
geladas e observar os casais afoitos girando pelo salão. Era incrível
ver aquela quantidade de lindas mulheres sozinhas esperando que um dançarino
as tirassem para dançar. E eu ali sem tomar atitude nenhuma.
Comecei a me sentir ridículo, como sempre me sinto nessas casas de dança.
E dale cerveja atrás de cerveja. As pessoas bebem ou para esquecer os problemas
ou pra se tornarem mais felizes ou as duas coisas. Fiquei lá no canto
escuro do bar pensando que realmente não devia ter entrado lá,
o único sujeito que não sabia dançar entre todas aquelas pessoas.
Foi quando uma bela garota, como que surgindo de um sonho colorido,
veio até mim, estendeu os braços e me convidou para dançar.
O que fazer? Como recusar um convite desses? Quem ajoelha, reza,
quem sai na chuva se molha, enfim... Lá fomos nós para o meio do salão.
É simples, pensei comigo mesmo, dois pra lá, dois pra cá, pura matemática!
Uma equaçãozinha besta mesmo. Talvez uma ginga de cintura aqui,
outra acolá e muito cuidado com os pés. Não pise jamais nos pés da dama!
Isso é equivalente a uma autêntica brochada, meu deus! Não sei por quê a moça
foi tirar justo eu para dançar. Entre tantos caras, o único que não sabia!
E ficou lá, despreocupada, esperando que eu tomasse a iniciativa nos movimentos.
Ah, eu juro que tentei! Esforcei-me o máximo que pude, mas as pernas trêmulas
cismavam em não corresponder aos meus ataques. Tentei puxar uma conversinha,
aquela conversa franca de quem não sabe dançar nadinha, mas ela pareceu nem dar
ouvidos. Eu seria apenas mais um com quem ela dançaria e ao findar da música
agradeceria e sairia em busca de outro par. Mas antes estivesse ocorrido ao menos isso.
Antes mesmo do findar da música, no meio da dança, ela se desprendeu de mim
e subitamente começou a dançar com outro sujeito que por lá passava,
me deixando plantado sozinho no salão, os braços ainda abertos
e a maldita das pernas trêmulas. Fiquei lá, parado por um instante,
me sentindo o maior de todos os otários. Alguns casais em minha volta
olhavam para mim e soltavam estúpidos sorrisos em minha direção.
Sim, eu estava derrotado por todos. Voltei desesperadamente para o
balcão atrás de uma cerveja e tomei-a de uma vez, em um só gole.
O que me restava naquela noite? Paguei a conta e saí do bar.
No caminho para casa jurei para mim mesmo que nunca mais dançaria
com alguém em minha vida. Bem, posso dizer que acabei não
cumprindo a promessa e vez por outra me arrisco em alguns
passos com alguma mulher amiga e piedosa.
Mas o trauma, esse sim, carrego comigo até hoje.
Alguém por acaso sabe o que é ser abandonado no meio do salão
antes mesmo de acabar a música? Pois eu sei, cara!
"Na vida há coisas muito piores do que ficar sozinho,
mas geralmente só percebemos isso quando é tarde demais,
e não há nada pior do que tarde demais."