Mais uma noite cinzenta.
Uma merda de uma noite em claro sem conseguir ferrar no sono.
Fico olhando para o teto e este parece se mover, como a tela de um imenso televisor fora de sintonia, com vários pontos cinzas girando em torno de um eixo que também gira em torno de outro eixo e daí por diante.
Todo o vinho barato desse mundo já foi despejado pelas goelas secas da humanidade essa noite. Todos os respeitáveis senhores ricos, vencedores, aprumaram a barriga e alisaram seus ilustres bigodes deitando-se ao lado de suas mulheres infelizes, gordas e com varizes. Os jornaleiros já estão prestes a distribuir toda aquela carga de notícias imundas que dão sentido à vidinha de boa parte da população. E meu cérebro dando voltas em torno do surrado travesseiro. Levanto e vou até a janela. São poucas as luzes acesas. Talvez outras pessoas angustiadas sofrendo de insônia como eu. Ou uma discussão entre casais pela madrugada adentro. Ou pessoas fazendo sexo, tentando esquecer alguma coisa. Escuto um galo cantar e volto pra cama.
Tento fazer um exercício de meditação, aquietando a mente de qualquer pensamento. Mas o cérebro é uma máquina engraçada. Tem vida própria. Martelam a nossa cabeça o dia inteiro com tudo quanto é tipo de aborrecimento, até que nosso cérebro se acostuma e durante a noite ainda recebe o eco das marteladas.
As donas de casa, lavadeiras, camareiras, neste momento sonham com uma vida melhor, com muito luxo, uma fantasia qualquer igualzinha ao que assistiram no último capítulo da novela. Os vigilantes noturnos espreguiçam-se na madrugada pensando em alguma mulher que na certa não está pensando neles.
A porra da meditação não funciona. Levanto, abro a geladeira e espio. Nada. No momento em que a claridade da luz invade a cozinha, as baratas loucas pelo resto de cerveja que ficou no copo em cima da pia, saem desgovernadas e bêbadas para embaixo de algum lugar. Enquanto a manhã se aproxima, a angústia vai aumentando. Será mais um dia de carga pesada, de marteladas na cabeça. Mais um dia de pura encenação. De parecer feliz, de parecer satisfeito com as ordem recebidas, com o salário recebido, com a ‘generosidade’ dos colegas. De parecer sempre sorridente e simpático com todos. Ah, as pessoas apreciam os bons atores, não?
Pego um livro qualquer na estante e abro na página 62.
“Costuma haver na embriaguez do haxixe três fases bem fáceis de distinguir, e a observação dos primeiros sintomas da primeira fase nos novatos é bastante curiosa.”
Era o poema do haxixe, de Baudelaire. Esse cara era um doido mesmo, penso. Solto uma risadinha irônica, fecho o livro e volto pra cama. Tento outra técnica, a de deitar em uma posição diferente da posição “insone” na cama. Não funciona. No cérebro continua o tum tum tum desenfreado das marteladas.
No hospício todos os loucos dormem tranqüilamente, embriagados pela doce loucura. O último bêbado andarilho já se deitou debaixo de uma marquise qualquer no centro da cidade. A velha senhora síndica do prédio já está de pé sobre o fogão, esquentando alguma coisa, bocejando e ajeitando a camisola ensebada. Todos os padeiros já soltaram uma praga qualquer diante dos fornos que já começam a aquecer os pães que irão sustentar o bucho das pessoas, cujos intestinos produzirão a merda toda que entrará pelos canos, alimentará os ratos e será despejada nos rios e oceanos.
Faltando menos de uma hora para que eu tenha que realmente ACORDAR, consigo pegar no sono. Um sono breve, escorregadio e aflito. Mas ainda tive tempo pra sonhar. Em meu sonho, entro no escritório e deparo com meu chefe com as calças arriadas se masturbando. Todos os outros também estão se masturbando. O chefe, o chefe do chefe, o chefe do chefe do chefe.... Todos os caciques fazendo caretas e sussurrando de prazer, um de frente para o outro.
PIPIPIPI... PIPIPIPI... PIPIPI... Porra de despertador! Acordo e vou rastejando até o banheiro. Sem expressão nenhuma, me olho no espelho e dou aquela coçada na bunda. A água quente do chuveiro cai sobre minhas costas e eu não consigo sentir nada. A água vai batendo em meu corpo, deslizando até ganhar o chão. As poças começam a se amontoar, vão se unindo e ganhando a direção do ralo. Tudo o que está podre em mim ganha a direção do ralo. Viro a cabeça para o lado e bato com a palma da mão no lado oposto, tentando tirar a água que entrou nos ouvidos. TUM TUM TUM ...
Recomeça a martelada.