- A humanidade não é tão ruim assim, meu filho! – Disse o doutor logo que saímos da sala de cirurgia. Eu acabara de ser operado. Era um cisto sebáceo que eu tinha no antebraço esquerdo. A afirmação do médico veio logo depois de ver o livro que eu carregava. – Ah, está lendo Nelson Rodrigues? NELSON RODRIGUES? Esse cara é foda, meu filho! FODA!
A cirurgia ocorreu sem maiores percalços, com o doutor contando piadinhas o tempo todo pra tentar me tranqüilizar. Minhas mãos transpiravam loucamente, um suor viscoso e gelado, enquanto ele preparava o tal bisturi elétrico.
- Você é casado, meu filho?
- Não.
- Não tem mulher nenhuma aí na sala de espera te aguardando?
- Não tem.
- Que incrível! São poucos os que vêm sozinhos.
- É, vim sozinho.
- Agora fecha esses olhos, meu filho. Vai ser uma picadinha rápida de nada.
Aquela picadinha de nada doeu mais que o esperado, mas o doutor com maestria e a experiência que seus cabelos e bigodes brancos delatavam, realmente foi bem rápido. Eu não agüentava mais aquela sala, aquela luz quente, aquelas piadinhas sobre futebol ou casamento. E o cisto sebáceo se fora ao beleléu...
- Nelson Rodrigues é óbvio, doutor. Isso é o que ele é. – Foi o que respondi.
Ele me olhou com uma risadinha irônica enquanto eu me despedia. Tive a impressão de que seus olhos desmentiam a sua afirmativa anterior. Eu voltaria a ler Nelson tantas outras vezes, assim como ele contaria as mesmas piadinhas também outras vezes, reparando se as mulheres acompanhavam ou não seus maridos à clínica tantas outras vezes, outras picadinhas de nada, outras e outras vezes.
Óbvio, apenas o óbvio. Assim é a humanidade, não é Nelson?